A Condição Humana. A natureza, as artes, as mulheres e também...os homens.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Depois dos americanos os ingleses

O Alentejo está na moda, todos sabemos, não só pelo vinho, mas principalmente pela genuinidade, tranquilidade e beleza que oferecemos a quem nos visita.
Sim! Fazemos a diferença! (podemos sempre interpretar esta diferença em dois sentidos, e, portanto, com algum relativismo)
O Alentejo cativou nos últimos anos jornalistas americanos, como já tinha assinalado
 há uns meses atrás, que nos tiraram bem o "retrato".
As notícias deste fim-de-semana são boas para a promoção turística da nossa região. Para colocar também o norte alentejano no mapa, que fica a um bom par de quilómetros de Beja (é só consultar o viamichelin), uma boa rede de transportes pode ser decisiva. Mas enquanto nuestros hermanos já preparam a futura plataforma de Badajoz para a Alta Velocidade, "nós" decidimos abrandar e até comprometer mais um projecto que pode ser decisivo não só para a nossa economia local, como alguns consideram em relação ao turismo, mas para a sobrevivência de uma das maiores regiões do território nacional.

 

domingo, 22 de maio de 2011

Dia Santo


Hoje como boa cristã fui à praia, Domingo é dia santo e como já dispensei a missa há alguns anos encontrei um ritual alternativo que é, ao mesmo tempo, bastante terapêutico. Podia chamar-lhe talassoterapia, ou terapia da flutuação, mas não (não estou sempre em terapia), prefiro que seja uma reconciliação comigo.
A praia não podia ser mais perfeita, a Comporta, tem tudo o que é espirituoso e espiritual: Alentejo, sol e mar sem ondas! A água é limpída, tem uma temperatura fantástica e, hoje, parecia uma lagoa...assim pude ficar ali a flutuar..a flutuar...até ficar tonta com aquele doce embalar! Para agreste já basta o dia-a-dia...
Porque hoje era dia de pensar em mim, aproveitei para me retirar e pari um sonho...
Ao chegarmos à Comporta fomos obrigados a fazer um desvio para a Carrasqueira, fiquei deslumbrada com as cabanas, já conhecia as do Carvalhal e do Pêgo, mas a Carrasqueira pareceu-me ainda mais especial...
Talvez porque no meu intímo vieram-me à memória as imagens de "Água e Sal" de Teresa Villaverde, pensei que aquela cabana seria o refúgio perfeito para (re)escrever a minha tese daqui a um ano. As imagens mais marcantes desse filme são: uma relação num impasse, os sonhos não vividos, a incerteza do futuro e um passado muito feliz, as coincidências como o meu presente são algumas.
Ah, uma crise de criatividade, que espero seja a única semelhança com "Água e Sal" daqui a um ano.
E se eu precisava de me refugiar... sinto que seria agora o momento!
Só tenho medo que daqui a um ano seja demasiado tarde, e que o meu refúgio, pensando noutra ficção que me marcou profundamente, venha a ser o Bosque Éden, com realização do excêntrico e polémico Lars Von Trier, no qual me verei transformada no Anticristo.
Por enquanto prefiro duvidar de tudo, até porque hoje, tive uma inspiração divina!


sábado, 21 de maio de 2011

Saúde e Protecção Social




A saúde tem uma importância vital nas nossas vidas parece bastante óbvio, mas que as situações de envelhecimento, doença crónica e dependência podem deixar-nos mais vulneráveis à pobreza não será assim tão evidente...
São significativas as diferenças entre os idosos dependentes com doença crónica e os jovens ou trabalhadores acidentados? Perguntaram-me ontem, quando apresentei o meu projecto de investigação...não procurarei as respostas por este caminho. As diferenças podem não ser significativas se se tratar do jovem a recibos verdes e sem qualquer suporte familiar, pois a sua vulnerabilidade aumenta. O que reforça a importância de sistemas fortes de saúde e protecção social.
A equação Saúde-Protecção Social=Pobreza parece fazer algum sentido, ou seja, passar por uma situação de doença e não ter um bom sistema de protecção social pode conduzir a uma perda considerável de recursos financeiros e ao empobrecimento.  Esta equação pode ser melhor clarificada a partir do conceito de Iatrogenic Poverty, ainda que aplicado a sistemas diferentes do português.
Pode ser um ponto de partida para conhecermos o impacto que um bom sistema de saúde e, também, de protecção social podem ter no combate à pobreza, até porque o discurso da austeridade e dos cortes orçamentais ganhou vida própria e ameaça querer cortar a torto e a direito, mesmo no essencial.
O momento político actual convida a uma reflexão sobre a importância das políticas públicas na saúde e ao seu impacto em diferentes grupos e, portanto, fases da vida.
Os Cuidados Continuados podem ser um bom exemplo de diversidade das respostas sociais em saúde que, a partir dos dois sistemas, garantem um apoio de qualidade aos idosos mais dependentes e com doença crónica e prevenindo eventuais situações de empobrecimento face à doença, é esta pelo menos a minha perspectiva.
Continuo por enquanto motivada para investir num estudo sobre o impacto dos cuidados continuados neste grupo...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Indulgência

O cão que ladrava sempre à mesma hora
E as damas que dormiam serenas nos seus latidos
Criaram tantos afectos que não mais...
Voltariam a odiar os outros;
Amai os que não têm pão, casa,
Igreja, partido, carinho e carícias...
Os sem-amor, os mal-amados e os frustrados!
E eu quem amo?
A todos...os que não conheço.
Desde então é como se
As convenções e as emoções
Não mais se separassem.
Por isso choro.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Afinal o que querem as mulheres?


Este anúncio pode dizer muito sobre algumas mulheres mas muito pouco sobre outras tantas, claro que é preciso compreender o contexto: anos 80 e USA. Isto tudo a propósito de um programa de rádio (O amor é...) que ouvi este fim-de-semana e que me deixou um tanto ao quanto incomodada. No programa, Júlio Machado Vaz dizia que algumas mulheres estão infelizes numa relação mas o que as mantém nessa relação infeliz é o nível de conforto que têm...por sua vez os homens tendem a empenhar-se mais em dar conforto do que no carinho e afecto, rematava o nosso interlocutor nas suas sábias palavras.
Já que os anos 80, 90 e até a primeira década do Séc. XIX passaram não é tempo de pensarmos no essencial e aprendermos duma vez por todas a viver na dita sociedade do consumo, estabelecendo como prioridade aquilo que é mais importante, o contrário é o pão nosso de cada dia mas porque o escolhemos como tal, sim somos nós que escolhemos: o vazio, a ansiedade, a solidão e a angústia.

Eu que adoro anúncios televisi
vos ( mas felizmente como faço terapia diária anti-consumo tenho só mais uma boa desculpa para não ver TV) achei este perfeito! Tem todos os ingredientes um bom realizador, uma mulher linda e claro uma música que eu adoro, da Nina Simone.
Ah, e um dos poucos sítios que eu adoraria conhecer nos US.

domingo, 15 de maio de 2011

Música

Esta vai animar o meu estudo...Podia ser "Queixas de Um Utente", que é sem dúvida uma das minhas preferidas, mas estou cansada de lamentações...e de queixas de utentes também!

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Triunvirato ou Troika?

No primeiro debate televisivo para as próximas eleições as diferenças foram evidentes, pelo menos para mim que até prefiro, e face à crise, uma apreensão mais pragmática dos discursos. Assim se o triunvirato tem a sua génese no império romano e a troika encontrou o seu auge no estalinismo soviético ...aqui encontramos diferenças. Se o estudo da linguística se aplicasse a Portugal e aos discursos políticos (até e principalmente aos hegemónicos), como propõe George Lakoff  a análise seria bem mais complexa e científica.
O debate pode ter deixado muito a desejar em relação às propostas quanto ao futuro governo de Portugal...
e sim, a pobreza empobrece a própria política...tal como ameaça a participação e a democracia.
Perdi o debate de ontem porque estava a trabalhar, mas vou continuar atenta!
No programa prós e contras, na passada segunda-feira, alguém referiu e eu consegui captar (porque tenho mil e uma tarefas enquanto oiço estes programas... ) que um dos partidos tem um programa com 120 páginas, se todos forem assim, ou alguém me faz uns sumários executivos dos programas ou não faço mais nada até dia 5 de Junho....

domingo, 8 de maio de 2011

Boa comida, bom futebol e muita história!



O Presidente da Câmara Municipal de Cascais apresentou este vídeo e as Conferências do Estoril deste ano conseguiram dar que falar, para o bem e para o mal.
Este vídeo resume em seis minutos os motivos para o orgulho da nação, pelo menos sê-lo-ão para alguns... mas será que mais uma vez o prestígio de Portugal no presente só passa pelo futebol? Não seria melhor pensarmos sobre isto?
Os finlandeses já responderam, parece que têm mulheres bonitas e respeitam os seus direitos, afinal vou me mudar é para lá...Sou portuguesa e também já perdi a modéstia....só não queria era perder o orgulho.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Há vida em Marte?

Porque se houver, vou-me mudar para lá!
Como boa marciana e por muito que me tente conectar com os terráqueos não está a ser fácil....
Hoje ao tentar fazer a minha ligação matinal ao grande irmão, salta-me pela rádio uma voz familiar que anunciava o fim das negociações com "o mais citado" e entre um i-qualquer coisa, cortes e aumentos, fui-me perdendo na paisagem da minha infindável paixão e paz, quente, solarenga e muito aromática. De repente liguei-me às suas cores fortes, ao verde, ao amarelo, ao branco e ao lilás. Só voltei a acordar quando ouvi um i-qualquer coisa, desta vez com um mi no fim, até porque o tópico me interessava. Entre as vacas que pastavam por ali, algumas aves que rapinavam e duas cegonhas, percebi por fim que por ali circulavam outros seres que, tal como eu, pensei: estaríam ou não concentrados no nosso interlocutor? "Hum, não me parece!" e desliguei novamente.
Na segunda tentativa de ligação ao mundo da realficção, desta feita já o sol estava e bem posto, decido espreitar a Terra e por cá tudo na mesma...ou melhor tudo de vento em pôpa! Graças, pasmem-se - ao Futebol. "Isto hoje está impossível!" Pensei, assim não aguento.  Para mim, que sou uma espécie de futebolofóbica, que à pála da Game Box fazia, na época passada, uma terapia de choque quinzenal em Alvalade (amor a quanto obrigas!) as sucessivas tentativas de auto-ajuda não estão a resultar. Prefiro ainda assim manter alguma convicção e sou, portanto, uma fã muito discreta do Benfica. Claro que tudo começou graças ao meu querido pai benficodependente, estes processos começam sempre com um trauma, que sempre que eu lhe pedia, ainda menina, para ir ver o Glorioso me respondia: "Aquilo não é para meninas...", facto que eu podia confirmar quando via no dia seguinte as cargas policiais na TV, esse posto de controlo (estou a falar dos anos 80 ainda estavamos em vias de...). Assim fui-me conformando com a minha condição, tendo no entanto e a propósito passado de benfiquista a feminista em três tempos. E entre sucessivas desilusões e uns quantos traumas (e alguns com consequências felizes que lançam desafios à Psicologia para, pelo menos, os próximos cem anos) optei por nem sequer arriscar a ligar a caixinha mágica nesse dia.
Mas aquilo que me interessa, no meio deste marasmo e de um dia de crucial importância para o país é como é que os meios de comunicação social fecharam o dia com a Vanglória do Futebol. E perceber a importância "pública" do futebol, ou melhor perceber o que queremos para o nosso futuro, como o pensamos ou estaremos tão parados na esfera política que só nos resta " Panem et circenses".  Por muito prestígio que o futebol dê ao país na Europa, porque temos duas equipas no final da liga e é caso para dizer, depois disto tudo, e em bom alentejano: Heeeicchhh! Ganda Coisa Esta!
Quem pagará esta conta?
Mesmo em vão deixo este apelo: volta troika e negoceia o fim do futebol para todos e todas as portuguesas.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Dúvida



"Uma vida que não se questiona não vale a pena ser vivida." Sócrates
Há muitos séculos atrás faria sentido, mas num dia-a-dia com excessiva regulação e ao mesmo tempo desordem, ainda fará?
Quem é que nos nossos dias não procura a (a)normalidade da vida?
Quem é que questiona? E o quê?

domingo, 1 de maio de 2011

Trabalhadores Pobres, Uni-vos!

"Trabalharei por migalhas"


Porque uma boa imagem vale mais do que mil palavras. Se por um lado me ficou a imagem do 1º de Maio sem vivacidade, pelo menos fica a sensação de que o humor não perdoa a audácia gananciosa dos poderosos!
O próximo ganhou o primeiro prémio num concurso europeu... "Direito de Passagem"!






terça-feira, 26 de abril de 2011

Abril sem fim?

Utopia

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
Afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
Nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu, a ti o deves
Lança o teu
Desafio

Homem que olhas nos olhos
Que não negas
O sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
O nada disto custa
Será que existe
Lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
Na minha rota?

José Afonso

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A Paixão

Esta quadra convida todos os católicos a uma aproximação com o divino. E eu sinto-me metade fora e metade dentro desta procura de aproximação, apesar de não me considerar ateia, vivo uma relação distante com a religião e ao mesmo tempo muito próxima com o divino.

Quando surgiram as grandes religiões a sua preocupação central foi fixarem-nos aos territórios, sendentarizando-nos. Em seguida o seu projecto para humanidade determinava que para sermos felizes para sempre a nossa alma devia separar-se do corpo, asim atingiría o divino. Para darem um sentido mais humano a este argumento criaram o pecado.
Para Saramago o pecado não existe e é um instrumento opressor criado pelas religiões, talvez concorde já que a existência de pecado subtraí-nos as nossas paixões, principalmente as da alma.
O Homem soube, no entanto, responder à opressão das religiões e inventou as paixões do corpo, para isso afastou-se do divino e centrou-se no corpo. A partir daí o conforto, a qualidade de vida, segurança, riqueza passam a ser a procura central do Homem já evangelizado.
A destruição da natureza é ilimitada, porque para muitos é um mal necessário, porque a sua divindade perdeu valor. Se sabemos que todos os povos não evangelizados tinham uma relação com a natureza enquanto divindade, porque nos fizeram esquecer isso? Porque é que isto não é matéria dos manuais escolares?
O facto é que tudo confluí para que assim seja, mas não podemos por isso deixar de reflectir sobre a natureza hoje mais do que nunca vivemos porque vivemos na Era do Homem.
photo: river Aghanashini Kumta , India

Hoje é o Dia da Terra, por isso oremos! Esta encontrei aqui, nunca estive na Indía mas já tive a experiência, simplesmente divina, de caminhar na selva da Sumatra e...encontrei esta divindade!




quarta-feira, 20 de abril de 2011

Sem limites

O sentido da arte é ilimitado ou é a criação artistíca que não tem limites?

Para Nadir Afonso o sentido da arte encontra-se na indissocibilidade entre a mobilização, por vezes inconsciente, da técnica, a partir do estudo matemático e da geometria, e a representação da vida humana e social. É nesta simbiose que o sentido da arte não pode ser, na sua perspectiva, uma figuração apenas do sentir do pintor.

"Ora, todo o conhecimento, (nomeadamente nas Artes), começa por uma observação sensorial e a sua ambição consiste em encontrar a lei normal (nomeadamente de expressão matemática) que o fundamente e justifique. A partir de tal objectivo, torna-se necessário afastar, essa oposição filosófica, intransigente a que assistimos nas Ciências da Natureza, entre o sujeito prático defensor da sensação e o sujeito teórico, defensor da razão." (Afonso)

Valorizando por um lado a arte e por outro a técnica e o estudo apurado, Nadir Afonso constrói um sentido para a arte enquanto estética da própria vida humana, nesta a razão prática e a razão teórica são indissociáveis.
Eu questiono-me se este poderá ser um bom ponto de partida para pensarmos o Serviço Social enquanto arte (tema em voga nos seminários de doutoramento), mas podemos encontrar no pensamento de Nadir Afonso uma afirmação que pode clarificar uma das limitações do próprio Serviço Social,
"Como vemos, para uns é a observação prática que cria problemas, erros e preconceitos, para outros é o pensamento teórico. Para uns são os sentidos que nos desorientam, para outros são as especulações de intelecto…
Ora o facto de privilegiarmos quer a observação prática quer o pensamento teórico não deve ser encarado como uma grandeza de espírito do sujeito, mas como um defeito e uma limitação." (Afonso)

Tornei-me uma entusiasta seguidora do trabalho deste pintor, recentemente, despois de visitar a exposição que apresentou no ano passado, no Museu do Chiado.
Para meu regozijo esta exposição, sob o formato de restrospectiva, abrangia todas as fases da sua longa trajectória.
Tendo neste percurso integrado o grupo de pioneiros dos estudos intitulados "Espacillimité", que imprimiram uma noção de movimento à pintura, destacando-se entre outras obras a seguinte obra, visionável a partir daqui. Esta exposição incluia no final uma sala toda dedicada à fase das cidades, confesso que gostava de ver uma exposição do pintor só dedicada a esta fase e que incluísse o maior número de obras produzidas sobre as cidades.

Recentemente visitei a exposição "Absoluto" no Museu da Presidência, o que mais me impressionou foi a reprodução de uma peça das "cidades" numa Tapeçaria de Portalegre, sublime!

Imperdível a retrospectiva até 19 de Junho de 2011, no Centro Cultural de Ílhavo.
Para quem não tem tempo resta o mais positivo da tecnologia para ver com atenção!

domingo, 17 de abril de 2011

O tempo

A senhora afastava-se em fato de banho ao longo da piscina e quando se encontrava a quatro ou cinco metros do professor de natação, virou a cabeça na direcção dele, sorriu-lhe, e fez-lhe sinal com a mão. Fiquei com o coração apertado. Aquele sorriso, aquele gesto, eram de uma mulher de vinte anos! A mão como que voara com uma ligeireza encantadora. Como se, por brincadeira, ela atirasse ao amante um balão de muitas cores. O sorriso e o gesto cheios de sedução, ao passo que o rosto e o corpo já nada de sedutor tinham. Era a sedução de um gesto afogado na não-sedução de um corpo. Mas a mulher, embora devesse saber que deixara de ser bela, esquecera-o nesse instante. Numa certa parte de nós mesmos, todos vivemos para além do tempo. Talvez só tomemos consciência da nossa idade em certos momentos excepcionais, permanecendo sem-idade a maior parte do tempo.

Este excerto de "A Imortalidade" de Milan Kundera fez-me pensar se a sua Agnès também poderia ser a protagonista deste excerto: 

Ontem pedi que o tempo parasse, mas apressaste-te a responder-me que não podemos parar o tempo, “porque o mundo ficava todo parado!”. Tinhas razão porque a tecnologia ainda não permite parar o tempo e muito menos as pessoas.
Mas, meu querido…deixa-me dizer-te que o mundo tem vários tempos, a medição do tempo é só uma invenção do nosso mundo civilizado. Esse tempo serve de referência no nosso dia-a-dia para aquilo que planeamos. Mas nós não planeámos nada disto, será que já conseguimos parar um tempo?
Ou melhor, como podemos viver o nosso tempo?

E é aqui que eu respondo: "O nosso tempo é o que fizermos dele!"

Nadir Afonso, disponível em http://www.nadirafonso.com/

terça-feira, 29 de março de 2011

Manifestem-se

Será que tudo o que ultimamente se tem dito sobre as sucessivas gerações que conduziram o país a esta crise ficará sem resposta?
Vejamos:
 A “Rasca” conheço bem, porque é a minha, mas com esta adjectivação, vá-se lá saber bem porquê, nem concordo ou melhor nunca concordei! Só porque três jovens decidiram mostrar “a bunda” ao Sr. Ministro da Educação, para assim manifestarem a sua indignação com a reforma educativa, ficámos todos condenados à mediocridade? Mas era uma geração que protestava nos sítios e nos momentos certos, apesar dos imponderados meios…
A geração que desenrasca merece mil louvores, sem ela o que seria de nós? Queridos pais, mães e até avós de todo o país a todos vós, um sentido e sonoro: OBRIGADA! A esta geração têm também apontado o dedo, foi injustamente responsabilizada quer pelos excessivos mimos aos filhos quer pelo “buraco” nas contas públicas. Mas esta é a mais sábia das gerações, a que responderá oportunamente.
Da geração à rasca pouco saberei dizer, com ela convivo diariamente e também com ela me poderia identificar. Não creio que esta seja a geração do umbigo que empunha singelas folhas A4 com as suas demandas individuais, nem a geração apática e passiva que “alguém” pôs à rasca. Mas estará esta geração à deriva, ou melhor, terá as competências necessárias para navegar à bolina?
A geração do desenrasca que é mais discreta, pois não protesta e nem sei se votará, é aquela que a cada nova década tem conseguido reinventar-se. Esta espécie é um subtipo que degenerou doutras e também da minha geração. Com esta(s) convivemos há muitos anos, mas sob a sua forma mais moderna tornou-se na geração que fareja o queijo e para lá chegar não olhará a meios o que resulta efectivamente não numa lógica geracional mas na existência de subtipos dentro de uma mesma geração, a partir do anunciado triunfo do individual sobre o colectivo. Inspirados no “Quem mexeu no meu queijo?” ou noutro best-seller americano qualquer, desde que possua a chave não só para a garantia de lucros como da própria felicidade (O que para eles são variáveis dependentes), TUDO farão para manter TUDO na mesma!
E nestes dias tão cinzentos, os dias do realismo puro, soube-me bem ler um pequeno manifesto “Indignai-vos” de Stéphane Hessel, pela maneira como pude rever alguns dos meus anseios e sobretudo encontrar caminhos, assim, é a esperança o que mais gostaria de ver partilhada pelas gerações. O que pode unir uma geração ou até várias é realmente a esperança num futuro melhor e no futuro possível que podemos construir de mãos dadas, usando a forma e os meios certos. Se hoje acreditamos na democracia então não nos deixemos enganar porque a música já foi uma arma, mas felizmente foi substituída já há alguns anos por outra mais poderosa: o voto! No entanto a música será sempre um bom meio de consciencialização.
Ficam as palavras de Hessel e dos veteranos do Conselho Nacional da Resistência Francesa, no 60º aniversário do seu Programa:
“E é por isso que continuamos a apelar a «uma verdadeira insurreição pacífica contra os meios de comunicação de massas que só apresentam como horizonte à nossa juventude uma sociedade de consumo, o desprezo pelos mais fracos e pela cultura, a amnésia generalizada e a competição renhida de todos contra todos.» A todos aqueles e aquelas que irão fazer o século XXI, dizemos com afecto: «CRIAR É RESISTIR. RESISTIR É CRIAR.»”

segunda-feira, 21 de março de 2011

Ser poetisa!

No Dia Mundial da Poesia vale a pena recordar uma Mulher Alentejana muito à frente do seu tempo...

Alma Perdida


Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente…
Talvez sejas a alma, a alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste… e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!…

Florbela Espanca - Livro de Mágoas


Foi sem dúvida uma grande POETISA! (note-se que eu nasci em 1977, mas o que para mim é óbvio nem sempre foi assim). 

domingo, 20 de março de 2011

Porque perfeita é a Primavera...

Hoje esteve um dia fabuloso, daqueles que só nos apetece fazer um itinerário diferente dos dias e rotinas da semana.
À tarde ir às Portas do Sol tomar um café e apanhar sol, sol e mais sol, até ficar à sombra! A seguir, cabelos ao vento, Avenida e Marquês, estava de aproveitar porque hoje não havia manifs...
e para terminar este roteiro perfeito rumo ao Jardim do Palácio das Galveias para lanchar. Não foi por acaso que Lisboa foi considerada o melhor destino turístico na Europa, em 2010, foi e continuará a ser!

quinta-feira, 17 de março de 2011

Wenders Forever

Em "The End of Violence" Wim Wenders apresenta-nos uma mistura quase explosiva de tecnologia, violência, vigilância e comunicação, sempre incisivo, real e incompassivo.
Aquilo que podemos perguntar é se os seus filmes transformam a realidade ou se a representam? Depois de um filme de Wenders nada fica como antes, por um lado o tabalho dele nunca nos deixa indiferentes porque aborda temas muito actuais como a violência, a desigualdade, a (des)humaninadade por outro lado a abordagem do realizador é paradoxal e mostra-nos diferentes verdades ou realidades. Ele é indubitavelmente um dos maiores do cinema actual e realizou um dos meus filmes preferidos (Asas do Desejo), para quem ama cinema não existe "o filme da minha vida".
Entre outras grandes obras também realizou "A Terra da Abundância", um filme que para mim é de ver e entranhar. Aquilo que alguns preferem estranhar ou o porquê de na América tudo abundar? Da riqueza à pobreza, da caridade à crueldade, um ensaio sobre esta fascinante democracia avançada.
Mas nas aventuras de Mr. Wenders, entre Lisboa, Havana e outras cidades, é Berlim a minha preferida, pelo seu simbolismo e é esta cidade que ele (re)apresenta no final da década de 80, em "As asas do desejo". E cinco estrelas é também a aparição e sonoridade de Mr. Cave and The Bad Seeds, quando o anjo encontra a trapezista.
Dos filmes ficam sempre as suas músicas, claro que não são só os filmes que são bons as bandas sonoras são do melhor. Do filme "The End of Violence" acompanha-me sempre esta...